O colar misterioso – Parte I

Eu não sei explicar a sensação árdua que caminha pelo meu corpo quando eu o vejo. É como se as milhares de células do meu corpo entrassem em colapso. Como se o sangue que percorre meu corpo congelasse e eu começasse a sentir a vibração de cada pulsação que meu coração faz.

Olhar para ele se tornou rapidamente a melhor parte do meu dia. Por mais que tenha feito uma semana que venho todos os dias para vê-lo, eu não consigo explicar para mim mesma o porquê disso tudo. Na semana passada, em mais uma noite que eu voltava exausta de um expediente de trabalho, naquele dia, mais cedo, enquanto saia de casas as pressas, eu ouvi o apresentador do jornal dizer que poderia haver pancadas de chuva à noite. A pressa não deixou eu verificar se o guarda chuva estava ou não na minha bolsa. E não estava. Antes de sair do trabalho eu desejei com todas as forças que não chovesse, embora as nuvens aparentassem estar carregadas.

Enquanto eu passava pelo parque que ficava há dois quarteirões da minha casa, pingos de chuva começaram a estalar no couro da minha bolsa. Era uma rua cheia de prédios e muros, não havia um local pra que eu pudesse me esconder da chuva, a ao ser no coreto que ficava no centro do parque.

Eu corri entre os carros que estavam estacionados e fui em direção à escada que levava ao coreto. E foi nesse momento que eu o vi pela primeira vez. Naquele momento eu experimentei sensações que ainda não havia sentido. Até hoje eu não consigo descrever o que eu senti naquele momento. Ele estava escorado em um dos pilares que rodeavam o coreto, olhando a pequena tempestade que se formava ao redor de nós.

Não éramos os únicos que estavam tentando se proteger da chuva. Havia um casal sentado no último degrau da escada e uma senhora próxima a mim. Eu me escorei em um dos pilares do lado oposto ao dele.

– Essa chuva nos pegou de surpresa – Disse rindo a senhora que estava do meu lado. Eu me desvencilhei do bombardeio de pensamentos que me cercavam.

– Por mais um pouco eu trabalharia amanhã com a roupa molhada – respondi dando um sorrisinho.

– Minha neta tem o cabelo ruivo parecido com o seu – murmurou a senhora. – Você é muito bonita, espero que a minha neta seja igual a você um dia.

– Obrigada, mas tenho certeza que ela será muito mais bonita – Respondi. E no momento que eu ia sorrir para ela eu vi ele dando alguns passos rumo ao pilar mais próximo. Meu coração gelou. Eu queria ouvir a voz dele. Tocar nele. Mas todas as minha vontades e desejos foram se dissipando junto a chuva que começava a desaparecer pela noite, só de imaginar falar com ele.

Ele andou até sentar no corrimão que cercava o coreto. Ele estava mais próximo a mim. Eu pude ver mais de perto. Tive a sensação de que ele também correu para fugir da chuva, porque o cabelo dele estava complemente emaranhado. Ele era lindo. O olhar misterioso e triste eram estranhamente fascinante. Tudo que eu queria estava ali. Ele estava ali.

Enquanto eu admirava cada detalhe dele, eu percebi que ele carregava um colar pendurado no centro do seu peito. Não era um colar comum. Parecia um medalhão com uma pedra vermelha em formato quadrado. As luzes dos pequenos lustres que ficavam pendurados nos pilares do coreto faziam as facetas do diamante brilharem.

Não era apenas o diamante que estava brilhando. Os meus olhos também estavam. Era ele que fazia meus olhos cintilarem por cada detalhe dele. Eu precisava saber quem era esse garoto. Eu precisava falar com ele. Mas só de imaginar os calafrios surgiam por volta do meu corpo.

Um som alto me despertou da hipnose que o garoto tinha me feito entrar. Era a buzina de um carro que passava pela avenida. Quando olhei em volta percebi que não tinha ninguém além de nós dois. A tempestade que jorrava lá fora parecia ter cessado a horas. Não estava entendendo o que tinha acontecido ali. Meu corpo começou a doer. Era o cansaço tomando conta de mim. Eu estava confusa. Completamente confusa. Olhei para ele mais uma vez antes de descer as escadas e, então, segui o caminho até minha casa.

E assim aconteceu durante toda a semana, sem nenhuma reação ou atitude. Eu não conseguia. Eu planejava todas as noites antes de dormir formas de falar com ele. Sonhei com ele todos os dias desde que o vi pela primeira vez. Ele passou a fazer parte do meu dia a dia sem ao menos eu saber quem ele é, mas estar aqui é de alguma forma essencial pra mim.

E aqui estou eu, mais uma noite sentada no corrimão do coreto admirando o garoto do colar misterioso. Tenho me perguntado por que ele está aqui todos os dias, não faz sentido algum. É incompreensível. Mas ele está aqui. De alguma forma isso se tornou uma das coisas mais importantes para mim. Tenho negado toda hora para mim mesma a possibilidade de estar apaixonada por ele. Não deveria ser possível, não sei nem o nome desse garoto. Mas eu estou. E como todos os dias, depois de admirar por uma noite inteira o garoto do colar misterioso, vou voltar para casa com a dúvida que me atormenta desde o dia que eu o vi pela primeira vez: se eu verei ele no dia seguinte.

Escrito por Henrique Maués

Minha Luz (Parte 1)

Queria que ela ao menos imaginasse o que ela significa pra mim. Por fora eu tento, dia após dia, parecer indiferente a tudo. A todas as histórias loucas que ela me conta enquanto estamos deitados de costas na grama em frente a casa dela. A todos os sorrisos simplesmente incríveis que ela dá me obrigando a fingir que não me desmonta por dentro. A todos os segredos que ela insiste em me contar porque sabe que se depender de mim, ninguém nunca vai saber.

O problema é que se ela sequer imaginasse, não seria estranho vê-la sair correndo. Eu não a culparia. Nunca senti isso por ninguém antes. Tenho 18 anos e o que parece é que tudo o que eu deveria sentir por alguém eu tô sentindo só agora. É no mínimo assustador. E eu insisto em evitar porque sei que isso pode estragar tudo. Pensar em perder a confiança que ela tem em mim. Pensar que eu posso nunca mais ver de perto aqueles olhos se fechando quando eu a faço sorrir com algum comentário idiota. Pensar que ela pode decidir não me procurar quando algo a estiver incomodando… Tudo isso é uma barreira que eu mesmo construo. Por puro e inquestionável medo.

Nem sempre foi assim. Não lembro onde tudo começou. Se foi quando ela começou a tocar piano ou quando cortou o cabelo bem curto. Se foi quando eu a vi dormindo pela primeira vez ou quando ela passou a precisar de sutiã. Tantas lembranças. Por vezes me esforcei tentando entender como isso aconteceu. Como me apaixonei pela garota irritante que me jogou no lago e pulou atrás porque não sabia que eu não sabia nadar. A garota sem noção que quebrou a vidraça do meu quarto porque não encontrou uma pedra mais leve pra chamar minha atenção. A garota que cresceu e agora já consegue subir em árvores.

A propósito estou em uma árvore agora. Mas não é uma árvore qualquer. Daqui consigo ver a janela do quarto dela que infelizmente não está iluminada. Odeio não saber onde e como ela está. Odeio ter quase certeza de com quem ela pode estar. Odeio essa sensação de total incapacidade de falar ou ao menos demonstrar o que sinto quando estou com ela.

Droga, ela está saindo de um carro. E… Ah, eu não estava errado. Cara, será que só eu acho eles um péssimo casal? O cabelo dela está tampando quase todo o rosto. Será que esse imbecil não vai colocá-lo para trás da orelha? Pelo visto não. O sorriso dela ilumina muito mais que as luzes desses postes. Tão nítido… Como se ela estivesse perto… Perto demais… Caramba, nem percebi que o carro foi embora. Ela tá vindo em direção à árvore. Sorrindo…