Minha história. Seu ponto final

Chego em casa e largo as chaves em um lugar qualquer onde provavelmente vou demorar para encontrar no dia seguinte. A voz dele ainda ecoando na minha cabeça como um despertador irritante. Ele não mediu esforços para deixar claro que não me quer mais por perto. Não consigo evitar me sentir uma tola por ter insistido tanto nesse romance fútil e sem sentido.

O que eu signifiquei pra ele? Ele não soube me responder ou talvez escolheu não responder porque falar em voz alta traria a tona tudo o que vivemos. E ele não quer pensar no passado porque o futuro é mais interessante: tem cabelo longo e 1,60m.

Meu estômago revira só de lembrar o jeito indiferente que ele me olhou essa noite. Brilho apagado, desinteresse. É muito esquisito quando alguém põe um fim na sua história. Uma história que você escreveu com todo o cuidado e amor mundo. E aí chega o dia em que o outro vem e põe um ponto final e no parágrafo seguinte começa uma nova história com alguém. Sem você. Dói e não é pouco. Dá vontade de gritar, qualquer coisa estressa, qualquer coisa é motivo para reclamar.

Minha vida não vai entrar nos trilhos novamente. Não consigo sem ele. Não quero ver ele com ela, como vou aguentar isso? É demais pra mim. Ela nem sabe dos trezentos tipos de alergia que ele tem. Não sabe que ele não suporta que falem alto e também não sabe que eu ainda o amo. Se soubesse o quanto dele ainda existe aqui dentro ela nunca chegaria perto. Ele está totalmente radioativo. Espero que ela tenha cuidado.

Não vai ser tão fácil pra ele também, não. Eu sei disso. Ou será que estou tentando me auto consolar? Sempre tive uma habilidade estranha para sair de situações difíceis sem muitos arranhões, mas dessa vez sinto que bati com o carro e que estou presa no meio das ferragens e qualquer movimento machuca.

Não vou me mover. Não enquanto ele não voltar. Não me importo, podem me dar falta, nota baixa, liguem para os meus pais. Me deixem quieta até que meu cabelo cresça ou até que ele perceba que eu sumi.

O colar misterioso – Parte I

Eu não sei explicar a sensação árdua que caminha pelo meu corpo quando eu o vejo. É como se as milhares de células do meu corpo entrassem em colapso. Como se o sangue que percorre meu corpo congelasse e eu começasse a sentir a vibração de cada pulsação que meu coração faz.

Olhar para ele se tornou rapidamente a melhor parte do meu dia. Por mais que tenha feito uma semana que venho todos os dias para vê-lo, eu não consigo explicar para mim mesma o porquê disso tudo. Na semana passada, em mais uma noite que eu voltava exausta de um expediente de trabalho, naquele dia, mais cedo, enquanto saia de casas as pressas, eu ouvi o apresentador do jornal dizer que poderia haver pancadas de chuva à noite. A pressa não deixou eu verificar se o guarda chuva estava ou não na minha bolsa. E não estava. Antes de sair do trabalho eu desejei com todas as forças que não chovesse, embora as nuvens aparentassem estar carregadas.

Enquanto eu passava pelo parque que ficava há dois quarteirões da minha casa, pingos de chuva começaram a estalar no couro da minha bolsa. Era uma rua cheia de prédios e muros, não havia um local pra que eu pudesse me esconder da chuva, a ao ser no coreto que ficava no centro do parque.

Eu corri entre os carros que estavam estacionados e fui em direção à escada que levava ao coreto. E foi nesse momento que eu o vi pela primeira vez. Naquele momento eu experimentei sensações que ainda não havia sentido. Até hoje eu não consigo descrever o que eu senti naquele momento. Ele estava escorado em um dos pilares que rodeavam o coreto, olhando a pequena tempestade que se formava ao redor de nós.

Não éramos os únicos que estavam tentando se proteger da chuva. Havia um casal sentado no último degrau da escada e uma senhora próxima a mim. Eu me escorei em um dos pilares do lado oposto ao dele.

– Essa chuva nos pegou de surpresa – Disse rindo a senhora que estava do meu lado. Eu me desvencilhei do bombardeio de pensamentos que me cercavam.

– Por mais um pouco eu trabalharia amanhã com a roupa molhada – respondi dando um sorrisinho.

– Minha neta tem o cabelo ruivo parecido com o seu – murmurou a senhora. – Você é muito bonita, espero que a minha neta seja igual a você um dia.

– Obrigada, mas tenho certeza que ela será muito mais bonita – Respondi. E no momento que eu ia sorrir para ela eu vi ele dando alguns passos rumo ao pilar mais próximo. Meu coração gelou. Eu queria ouvir a voz dele. Tocar nele. Mas todas as minha vontades e desejos foram se dissipando junto a chuva que começava a desaparecer pela noite, só de imaginar falar com ele.

Ele andou até sentar no corrimão que cercava o coreto. Ele estava mais próximo a mim. Eu pude ver mais de perto. Tive a sensação de que ele também correu para fugir da chuva, porque o cabelo dele estava complemente emaranhado. Ele era lindo. O olhar misterioso e triste eram estranhamente fascinante. Tudo que eu queria estava ali. Ele estava ali.

Enquanto eu admirava cada detalhe dele, eu percebi que ele carregava um colar pendurado no centro do seu peito. Não era um colar comum. Parecia um medalhão com uma pedra vermelha em formato quadrado. As luzes dos pequenos lustres que ficavam pendurados nos pilares do coreto faziam as facetas do diamante brilharem.

Não era apenas o diamante que estava brilhando. Os meus olhos também estavam. Era ele que fazia meus olhos cintilarem por cada detalhe dele. Eu precisava saber quem era esse garoto. Eu precisava falar com ele. Mas só de imaginar os calafrios surgiam por volta do meu corpo.

Um som alto me despertou da hipnose que o garoto tinha me feito entrar. Era a buzina de um carro que passava pela avenida. Quando olhei em volta percebi que não tinha ninguém além de nós dois. A tempestade que jorrava lá fora parecia ter cessado a horas. Não estava entendendo o que tinha acontecido ali. Meu corpo começou a doer. Era o cansaço tomando conta de mim. Eu estava confusa. Completamente confusa. Olhei para ele mais uma vez antes de descer as escadas e, então, segui o caminho até minha casa.

E assim aconteceu durante toda a semana, sem nenhuma reação ou atitude. Eu não conseguia. Eu planejava todas as noites antes de dormir formas de falar com ele. Sonhei com ele todos os dias desde que o vi pela primeira vez. Ele passou a fazer parte do meu dia a dia sem ao menos eu saber quem ele é, mas estar aqui é de alguma forma essencial pra mim.

E aqui estou eu, mais uma noite sentada no corrimão do coreto admirando o garoto do colar misterioso. Tenho me perguntado por que ele está aqui todos os dias, não faz sentido algum. É incompreensível. Mas ele está aqui. De alguma forma isso se tornou uma das coisas mais importantes para mim. Tenho negado toda hora para mim mesma a possibilidade de estar apaixonada por ele. Não deveria ser possível, não sei nem o nome desse garoto. Mas eu estou. E como todos os dias, depois de admirar por uma noite inteira o garoto do colar misterioso, vou voltar para casa com a dúvida que me atormenta desde o dia que eu o vi pela primeira vez: se eu verei ele no dia seguinte.

Escrito por Henrique Maués