Meu mar é você – Parte III

Eu pretendo encarar esse doloroso dia com o máximo de alegria que eu conseguir. É o segundo aniversário dele que passamos juntos e o dia 12 de julho tem sido tão perfeito desde então. Não apenas por ser o aniversário dele, mas por ele ter tornado esse dia inesquecível até hoje. Vê-lo em um leito de hospital cinco vezes por semana tem sido devastador. Não houve um dia em que eu tenha dormido em paz desde o dia que ouvi do médico que o Davi está em seus últimos dias… Eu sinto que estou despedaçando.

Nunca pensei que salvar o número do sorveteiro da praia seria tão importante. Comprei três isopores de diversos sabores de sorvete para levar para ele hoje. Poderia ter comprado na sorveteria próxima ao hospital, o que facilitaria para mim, mas ele não hesitaria em fazer um discurso dizendo o motivo pelo qual o sorvete do tio da praia é melhor. “A humildade é doce” ele diria.

Ele deve estar se perguntando o porquê de eu ainda não estar com ele. Mas achei que seria bom que ele passasse um pouco mais de tempo com os pais dele. Há semanas que eu estou roubando o Davi só pra mim. Mas, mesmo sabendo disso, a saudade é muito intensa.

– Eu cheguei a pensar que você não viria, faz uns 5 minutos que meus pais saíram. – Ele disse arrumando o travesseiro em sua cabeça. E embora ele tenha dito com alegria, os olhos dele transpareceram cansaço e exaustão, o que me fez questionar a ideia do sorvete e ter hesitado um pouco em mostrar.

– Você não está pensando em não deixar eu tomar o sorvete do tio da praia, né? – Ele franziu as sobrancelhas em um tom de reprovação.

– Não, eu… Só pensei que poderia lhe fazer mal de alguma forma.

– Ah Samuel, você não vai me deixar morrer sem ao menos tomar esse sorvete antes, passe pra cá. – Ele resmungou e puxou a sacola. Faz dias em que eu tento não desmoronar na frente do Davi. Ver ele lidar com o câncer da forma mais natural possível, me causa um misto de admiração e desespero.

– Nossa! Eu nunca pensei que sentiria tanta saudade de um sorvete! Que delícia! – Ele disse com a boca cheia de sorvete de flocos.

– Eu suspeitei que isso fosse acontecer, tome, trouxe um pano.

– Obrigado, mamãe. – Disse com uma risadinha irônica. E por mais que eu tente segurar a enxurrada de lágrimas que ameaçam escapar, elas sempre escapam.

– Que droga, Samuel! Por que você está chorando? Hoje é meu aniversário, quero apenas alegria e mais nada! – Ele gritou e largou o sorvete na mesinha ao lado de uma bandeja com restos do lanche da tarde.

– Eu sei… Prometo que vou tentar. – Eu disse enxugando o rosto na manga da camisa.

– Ok… Agora, em relação a algo importante, diz para mim que você está cuidando da verdinha bipolar. – Ordenou levantando uma das sobrancelhas, visivelmente para trocar o assunto.

Logo que o Davi começou a vir com mais frequência para o hospital – e inevitavelmente ter vindo morar no hospital – ele pediu para que eu cuidasse da plantinha dele. Mas, essa planta possui um significado forte demais para eu deixar sobre minha responsabilidade, por isso, eu pedi para o Sr. Francisco cuidar dela pra mim. Ele tem um jardim incrível.

– Sim, ela está verde e saudável como nunca, não se preocupe. – Eu afirmei, pedindo a Deus para que fosse verdade.

– Ela deve estar sim, o Sr Francisco tem boas mãos com jardinagem, né?  – Perguntou cruzando os braços.

O QUE??? Como ele soube???

Percebendo que fiquei sem palavras pra explicar, ele disse:

– Eu achei estranho você não me perguntar nada sobre os cuidados que eu te repassei em relação a verdinha, por isso eu liguei pro Sr. Francisco para ele dar uma olhada nela pra mim. Acho que o resto não preciso dizer né? – Disse ele rindo.

– Mas por que você não me ligou? Por que ligou para ele? – Eu perguntei para tentar me esquivar do assunto.

– Por que nesse dia você estava trabalhando o dia inteiro, você já tinha me avisado, lembra?

– Então foi por esse motivo que Sr. Francisco ria de mim toda vez que eu soltava um ” quero que o Davi se surpreenda com meus dotes na jardinagem”. Ah, me desculpa. Eu…

– Não precisa, você não acha que eu lhe daria a verdinha bipolar para cuidar sendo que eu sei que você é péssimo com isso? Eu sabia que você ia pedir pro sr. Francisco.

– É por isso que eu te amo sabia? Você tem essa capacidade estranha de me fazer sentir bem até quando faço algo errado. – Eu disse e dei um beijo na cabeça dele e o abracei.

Nós já discutimos algumas vezes sobre o tamanho do cabelo dele. Até hoje não entendo qual o problema dele com o barbeiro. Mas agora, ver ele sem um fio de cabelo me deixa angustiado. Ficamos alguns segundos abraçados em silêncio. O suficiente para os bipes dos aparelhos começarem a incomodar

– Você não faz ideia da falta que eu sinto de mergulhar meus pés naquele mar! Minha alma está em abstinência! – Ele disse bufando.

– Eu tentei um diálogo com seus pais e o médico para ver essa possibilidade, mas sem sucesso.

– Samuel, eu estou praticamente morto, parece que eles querem me ver morrer em uma sala de hospital. – Respondeu aborrecido.

Ele não faz ideia da dor que me causa ao se referir a ele mesmo dessa forma. Por mais que eu tente, a dor é intensa demais para suportar. Dói tanto lembrar dos dias que caminhamos na praia e comparar com o hoje, onde a única vista que temos é o estacionamento do hospital.

– Que merda, Davi… Você não entende. Eu não posso. Eu não estou preparado e nunca estarei preparado para te perder. E você age como se isso não importasse. Você não se permitiu tentar vencer essa doença. Eu queria poder arrancar isso de você, mas eu não posso… Não posso. – Eu disse e comecei a chorar desesperadamente.

– Me desculpe, Samuel. Você não é o tipo de cara que merece passar por uma merda como essa. – Respondeu ele me puxando para mais perto. – Quando descobri que estava doente, era um pouco tarde. E entre escolher enfrentar dias, meses e até anos de hospital ou lutar mais pelo meu planeta, você já sabia o que eu escolheria, meu amor. – Ele disse olhando nos meus olhos. – Minha missão aqui está cumprida, e eu não me arrependo de ter ido àqueles protestos para proteger o único parque ambiental que ainda nos resta. Nós conseguimos! Mesmo que tenha me tirado alguns meses de vida. Você mais que ninguém, deveria me entender.

Ele disse essas coisas com um olhar tão determinado que eu só consegui pensar no quanto ele é incrível e em como vou conseguir viver sem esse poço de inspiração ao meu lado.

– Eu entendo, eu só… Eu te amo demais…

– Ora seu bobo, eu te amo também.

Desde que conheci o Davi, eu sinto como se ele tivesse vindo ao mundo por ordem da natureza. Pode parecer loucura, mas não há alguém que o conheça e que não sinta a mesma coisa. Todo mundo também já sabe que o último desejo dele é que suas cinzas sejam lançadas ao mar. Desde que ele descobriu a doença, não há um dia em que ele não toque nesse assunto. Então eu reuni toda a força e coragem que me restava para dar início a esse assunto que já me deu tantos calafrios.

– Eu tenho uma notícia boa para você. – Eu disse e lhe entreguei um papel que estava em meu bolso.

– Samuel! Você está brincando? – Ele disse e tentou levantar, mas sem êxito. Os olhos brilhando de emoção.

– Depois de uma longa conversa com seus pais, e difícil para ser sincero, consegui convencê-los a assinarem os documentos para a cremação.

Ele enxugou as lágrimas com a manga do moletom, me olhou nos olhos e disse em voz baixa:

Sabe… Desde a noite que eu te conheci na praia, não houve um dia sequer em que eu não estive feliz. Nunca imaginei que alguém tão diferente de mim iria me entender mais do que qualquer outro. Todos os dias eu me questionava se aquilo de fato estava acontecendo. E hoje eu consigo entender que de alguma forma a praia uniu nós dois naquela noite para que eu pudesse ter o melhor final de vida que alguém poderia imaginar. Obrigado, Samuel… Obrigado mesmo.

The End.

Por Henrique maués

Meu mar é você – Parte II

Arhg! Preciso me lembrar de trocar o toque desse maldito alarme. Já é o suficiente ser o último dia da minha quinzena de férias. Por mais que eu odeie ficar longe do meu trabalho, eu estava precisando desse tempo. Eu não ficaria admirado de mim mesmo se eu esquecesse de cumprir a programação que geralmente faço no dia anterior. Mas ontem eu fiz e hoje irei cumprir, mesmo depois de diversos fracassos.

Minha programação se resume em limpar e organizar esse apartamento – deve fazer meses que não limpo devido a correria que tem sido no trabalho. E ao final do dia ir à praia, tomar um sorvete e desfrutar da minha própria companhia e, quem sabe, até terminar o relatório que ainda tenho semanas para entregar.

Limpeza junto com minhas playlists sempre são um caminho sem volta. Por mais que eu tente terminar cedo, nunca consigo. Meu deus, são 10 horas. Quantas horas eu gastei arrumando, 10? Conseguiu bater o record, parabéns, Samuel. Agora está tarde demais para ir à praia. Mas, mesmo que o sorveteiro não esteja lá, vou ao menos dar uma caminhada. Irei cumprir minha programação. Ao menos hoje.

Eu deveria fazer isso mais vezes, mas o tempo que tenho livre é para dormir, que saco! Eu poderia admirar a paisagem que a praia me proporciona todos os dias. A propósito, hoje está incrível. Diversas constelações de estrelas rodeiam a lua como se estivessem contemplando-a e as ondas trafegam com harmonia total. Que espetáculo!

Além de mim, tem apenas 3 pessoas aqui. Um casal que desde a hora que cheguei estão aos amassos, e um garoto de uns 18 anos ou menos. Desse ângulo ao menos, me parece muito bonito. Ele tem os cabelos longos e bem escuros, que me fez lembrar das penas de um corvo. Altura mediana, e o mais atrativo e curioso é que ele tem a pele em uma tonalidade bastante clara. Suas características me fazem lembrar o Will, personagem do último livro que li. Será que ele é tão legal quanto? Isso, infelizmente, não consigo deduzir.

Provavelmente são umas onze e meia, talvez seja hora de voltar para casa. Imagino que o Sr. Francisco, o porteiro, vai me dar um puxão de orelha por chegar tão tarde. Ele é, no momento, a única imagem paterna para mim. Mas não teria como ir embora dessa praia sem molhar os meus pés antes, é como um ritual.

– Com licença a água está muito gelada? – Perguntou o garoto que caracterizei a uns minutos atrás.

– Congelante! Mas eu não conseguiria ir embora enquanto não mergulhasse meus pés nela. – Respondi com a maior sutileza e simpatia que consegui

– Você acha que eu suportaria dar um mergulho? – Ele pediu minha opinião com tamanha empolgação, que fiquei admirado.

– Acho que sim, mas se você sairá vivo eu não posso garantir. – Respondi com uma risada irônica.

O garoto começou a rir e eu nunca vi alguém rir assim. Ele estava se retorcendo na areia de tanto rir, eu apenas fiquei olhando, até que ele se levantou e disse:

– Me chamo Davi e você? – Perguntou, meio ofegante e com o rosto vermelho de tanto rir. Eu entendo que pessoas claras ficam vermelhas quando riem, mas ele estava ao extremo. Parecia com um tomate, e não estou exagerando.

– Samuel. – Respondi depois de ter hesitado um pouco.

– Bom Samuel, eu vou mergulhar. Se eu morrer, poderia dizer aos meus pais que eu os amo? – Ele disse em meio aos risos e gargalhadas.

Rimos por alguns segundos

– Suponho que eu poderia sim.

– Não poderia se você viesse mergulhar e morrer junto comigo, né? – Ele disse seriamente em um tom convidativo. Mas só de imaginar ter meu corpo inteiro dentro dessa água congelante me deu calafrios. E aliás, eu ia trabalhar no dia seguinte.

– Desculpe, mas não é uma boa ideia. – Respondi com educação e fui colocar minhas sandálias.

– Ele apenas me ouviu e foi correndo para a água. Depois de uns segundos ele surgiu em meio as ondas e disse:

– Você tinha razão, está congelando! Mas se a mãe natureza nos trouxe até aqui, tenho certeza que o propósito nadar em suas águas! – Ele gritou e sumiu nas ondas novamente. Que garoto esquisito… Mãe natureza? Tenho certeza que ele vai estar congelado em alguns minutos.

– Aliás, não tem como você ir embora sem suas sandálias né? – Gritou ele após reaparecer em meio as ondas com as minhas sandálias nas mãos. Em que momento ele fez isso? Esse garoto deve ter um neurônio a menos, só pode ser!

– Devolve minhas sandálias por favor, Ravi! – Gritei alto para que pudesse me ouvir apesar do barulho das ondas.

– Primeiro, meu nome não é Ravi, é Davi. E segundo, só vou lhe devolver se você mergulhar, eu acho uma proposta justa.

– Desculpe, mas eu trabalho amanhã. E provavelmente deve ser mais de meia noite e eu preciso voltar pra casa. – Foi o que respondi, no entanto pensei que um mergulho não teria tanto problema, teria? Além do mais, é a primeira vez durante minhas férias que alguém interage comigo dessa forma.

– Tudo bem, mas eu não vou levar suas sandálias – ele disse se aproximando da margem – pega aqui.

Mesmo com ele se inclinando o máximo, minhas pernas mergulharam na água novamente. Quando eu menos esperei, ele me puxou, fazendo com que eu mergulhasse por completo. Fiquei chateado pela inconveniência, mas eu também estava feliz. Quem é esse garoto que conseguiu fazer eu me sentir, de fato, feliz? Rejeitar a companhia dele não seria um meio de descobrir.

– Será que sua mãe natureza está contente comigo agora? – Falei jogando água no rosto dele.

– Agora que você cumpriu sua pena, creio que sim. – Ele riu e retribui a água no rosto.

E assim ficamos, brincando igual crianças na praia em plena madrugada, e por um tempo, eu simplesmente esqueci de tudo.

[Continua…]

Por Henrique Maués