O cara do boné vermelho

As aulas têm passado tão devagar desde o dia que o conheci. Não consigo me concentrar direito porque ele não sai da minha cabeça. A todo momento penso se ele está lá fora no corredor, encostado na parede conversando com os amigos. Às vezes tenho a impressão de ouvir a risada dele.

Hoje ele não ajudou muito. Apareceu na porta da minha sala, olhou diretamente pra mim e sorriu. Tentei me convencer de que ninguém percebeu. Meu rosto todo ficou quente. Ele me causa uma sensação esquisita de calor.

De repente havia uma folha com 10 questões de matemática na minha mesa. Não percebi quando minha amiga a colocou ali. Ele estaria me esperando na portaria? Ou na escada perto da sua sala? Fitei o relógio implorando para que chegasse ao 12 logo. A expectativa me paralisa.

No caminho para a saída passei pela sala dele vazia torcendo para que ainda não tivesse ido. Avistei ele de longe. Ao me aproximar ouvi a inspetora implicando com seu boné vermelho. Ele se virou para sair e eu apressei os passos para alcançá-lo.

– Eaí – ele disse virando o boné para trás e andando até a saída. – Me disseram que você ia sair às 12. Tá afim de comer alguma coisa no Tricks?

Minhas mãos estavam suando e eu só queria tocar a mão dele de novo.

– Ah, sim. Com certeza… Vamos lá. – Respondi fitando meu all star amarelo. Ele sorriu e me encarou.

– Oxe, que que foi? – perguntou com uma expressão curiosa. Senti meu rosto arder. Se ele soubesse que ele não saiu da minha cabeça desde a sexta-feira passada. O fim de semana foi uma tortura. Só conseguia pensar em como seria rever ele de novo depois do que fizemos. Meu corpo todo se arrepia só de lembrar. Levantei o olhar e o encarei. Eu queria falar algo a respeito. Queria que ele tocasse no assunto.

– Nada – respondi sorrindo – acho que é fome.

– Isso aí eu posso resolver – respondeu colocando o braço esquerdo em volta do meu ombro. Me braço direito automaticamente o envolveu pela cintura. Não sei de onde veio essa atitude, mas ele não achou nada estranho.

– Cadê os seus amigos? – Tentei puxar assunto.

– Já foram a um tempinho. A gente saiu 10:45.

– Você ficou aqui todo esse tempo? – perguntei muito surpresa.

– Ué, sim. Por que? Eu não deveria? – Minhas pernas tremeram. Nem parecia que na noite anterior eu ponderei a ideia de ele estar só me usando como fez com todas as outras garotas. Eu estava nervosa. Ele realmente queria estar ali comigo? Porque eu estava ali. Completamente ali. Totalmente pra ele.

Você, eu e o nosso smartphone

Esse é um texto sobre eu, você e o tempo. Se a gente tem a certeza que uma vez que ele passa, não volta mais, por que teimamos em usá-lo para ficar observando de esguelha a vida das pessoas, ou esperando quase desesperadamente por um feedback legal da última foto que postamos? É meio esquisito isso se a gente for parar para analisar. Essas atitudes não influenciam em nada na nossa vida, na verdade só atrasam.

Faz uns meses que tenho prestado mais atenção no meu relacionamento com esse balangodango que eu carrego para todo lugar. Muita gente fala que o problema não é o smartphone em si. Concordo, né? O coitado sozinho não faz nada. O poder todo está com a gente. Seja ao desbloquear a tela quantas vezes quisermos, acessar as redes sociais em cada intervalo de tempo mesmo sabendo que não há nada de novo lá ou permitir que o tilintar de uma notificação nos distraia de algo realmente importante. Tudo isso vira um loop sem fim se a gente não tomar cuidado.

Cada um faz o que bem entende com as suas 24 horas, sabe? Mas sei lá… É uma coisa a se conversar em uma roda de amigos. Levar a sério mesmo. Porque para muita gente é normal ficar rolando o feed por horas a fio. Perder sono, prazos e neurônios. Mas não é normal; chegamos nesse ponto através de um processo quase imperceptível. Era realmente para ser desse jeito, sutil, a ponto de virar comum.

O tempo não mudou, mas não posso dizer a mesma coisa da gente, do modo em que estamos levando a vida e a quantidade infinita de informações que tomam nossa atenção minuto após minuto, hora após hora. Se a gente não parar um pouco, respirar fundo e olhar com carinho para os nossos hábitos, a gente corre o risco de um dia abrir os olhos de manhã, olhar em volta e não reconhecer mais a nossa própria vida.