Uma página em branco

Uma página em branco

Ela girou as chaves na porta e o clique que ouviu a atingiu como uma notícia muito boa. As borboletas estavam tão agitadas que pareciam se chocar umas com as outras em seu estômago. Por falar em estômago, ela não conseguiu comer nada, tão grande era a ansiedade. Imaginar que dali a alguns minutos iria pisar em solo europeu estampava automaticamente o sorriso mais genuíno em seu rosto.

Dentro do táxi, ela se distraiu pensando se havia esquecido algo. Quanto mais tempo se passa arrumando as malas maior é a sensação de estar esquecendo algo. Um paradoxo estranho. A mala do carro carrega duas malas de tamanho considerável, e abarrotadas de coisas. Seria impossível ter esquecido algo já que ela estava levando consigo a casa inteira. Na noite anterior, ela dormiu imaginando como iria carregar tudo sozinha.

O relógio de ponteiros dourados revelou que ela chegara ao aeroporto duas horas antes. Se tem algo que a estressa é chegar tarde aos lugares. Ela detesta a sensação de pressa e correria.

Ela avistou um carrinho de bagagens próximo e o taxista a ajudou a colocar as malas. Até que não foi difícil manobrar o carrinho até a lanchonete. Ela decidiu que iria tomar um último milkshake brasileiro antes de embarcar e isso a fez se perguntar se iria sentir muita falta da comida do Brasil. Ouviu por aí que a comida de outros países podem ser bastante sem graça.

No primeiro gole do milkshake de morango ela lembrou da primeira vez que esteve em um aeroporto. Era difícil dizer qual das duas viagens a deixou mais animada. Belém-São Paulo ou São Paulo-Londres? Apesar da beleza que é estar indo para Londres, é certo que nada irá se igualar ao sentimento de incerteza que a invadiu quando decidiu deixar tudo o que ela conhecia para trás para morar em uma cidade cinza que mais tarde ela iria descobrir, combinaria perfeitamente com a sua própria vida.

Enquanto fazia o check-in, vários flashs passavam em sua mente. Não foi um ano fácil para ninguém, mas ela aproveitou que estava todo mundo na merda e se jogou de cabeça em algo que ela já deveria ter feito a muito tempo. Não tinha nada a perder, a não ser as economias guardadas durante 3 anos. Ela lembrou dos dias em que teve que lutar para levantar da cama. Das noites em que passou horas mirando o teto e tentando lembrar quem ela era. E dos dias que, no geral passavam tão sem graça, que era difícil distinguir um do outro.

Pensar no que ela poderia ter feito diferente era algo que a perseguia constantemente. Mas a poucos minutos de entrar em um avião com destino a cidade dos sonhos, ela percebeu que todos os fantasmas haviam ficado naquele apartamento mal iluminado da rua Cecília.

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