Meu mar é você – Parte II

Arhg! Preciso me lembrar de trocar o toque desse maldito alarme. Já é o suficiente ser o último dia da minha quinzena de férias. Por mais que eu odeie ficar longe do meu trabalho, eu estava precisando desse tempo. Eu não ficaria admirado de mim mesmo se eu esquecesse de cumprir a programação que geralmente faço no dia anterior. Mas ontem eu fiz e hoje irei cumprir, mesmo depois de diversos fracassos.

Minha programação se resume em limpar e organizar esse apartamento – deve fazer meses que não limpo devido a correria que tem sido no trabalho. E ao final do dia ir à praia, tomar um sorvete e desfrutar da minha própria companhia e, quem sabe, até terminar o relatório que ainda tenho semanas para entregar.

Limpeza junto com minhas playlists sempre são um caminho sem volta. Por mais que eu tente terminar cedo, nunca consigo. Meu deus, são 10 horas. Quantas horas eu gastei arrumando, 10? Conseguiu bater o record, parabéns, Samuel. Agora está tarde demais para ir à praia. Mas, mesmo que o sorveteiro não esteja lá, vou ao menos dar uma caminhada. Irei cumprir minha programação. Ao menos hoje.

Eu deveria fazer isso mais vezes, mas o tempo que tenho livre é para dormir, que saco! Eu poderia admirar a paisagem que a praia me proporciona todos os dias. A propósito, hoje está incrível. Diversas constelações de estrelas rodeiam a lua como se estivessem contemplando-a e as ondas trafegam com harmonia total. Que espetáculo!

Além de mim, tem apenas 3 pessoas aqui. Um casal que desde a hora que cheguei estão aos amassos, e um garoto de uns 18 anos ou menos. Desse ângulo ao menos, me parece muito bonito. Ele tem os cabelos longos e bem escuros, que me fez lembrar das penas de um corvo. Altura mediana, e o mais atrativo e curioso é que ele tem a pele em uma tonalidade bastante clara. Suas características me fazem lembrar o Will, personagem do último livro que li. Será que ele é tão legal quanto? Isso, infelizmente, não consigo deduzir.

Provavelmente são umas onze e meia, talvez seja hora de voltar para casa. Imagino que o Sr. Francisco, o porteiro, vai me dar um puxão de orelha por chegar tão tarde. Ele é, no momento, a única imagem paterna para mim. Mas não teria como ir embora dessa praia sem molhar os meus pés antes, é como um ritual.

– Com licença a água está muito gelada? – Perguntou o garoto que caracterizei a uns minutos atrás.

– Congelante! Mas eu não conseguiria ir embora enquanto não mergulhasse meus pés nela. – Respondi com a maior sutileza e simpatia que consegui

– Você acha que eu suportaria dar um mergulho? – Ele pediu minha opinião com tamanha empolgação, que fiquei admirado.

– Acho que sim, mas se você sairá vivo eu não posso garantir. – Respondi com uma risada irônica.

O garoto começou a rir e eu nunca vi alguém rir assim. Ele estava se retorcendo na areia de tanto rir, eu apenas fiquei olhando, até que ele se levantou e disse:

– Me chamo Davi e você? – Perguntou, meio ofegante e com o rosto vermelho de tanto rir. Eu entendo que pessoas claras ficam vermelhas quando riem, mas ele estava ao extremo. Parecia com um tomate, e não estou exagerando.

– Samuel. – Respondi depois de ter hesitado um pouco.

– Bom Samuel, eu vou mergulhar. Se eu morrer, poderia dizer aos meus pais que eu os amo? – Ele disse em meio aos risos e gargalhadas.

Rimos por alguns segundos

– Suponho que eu poderia sim.

– Não poderia se você viesse mergulhar e morrer junto comigo, né? – Ele disse seriamente em um tom convidativo. Mas só de imaginar ter meu corpo inteiro dentro dessa água congelante me deu calafrios. E aliás, eu ia trabalhar no dia seguinte.

– Desculpe, mas não é uma boa ideia. – Respondi com educação e fui colocar minhas sandálias.

– Ele apenas me ouviu e foi correndo para a água. Depois de uns segundos ele surgiu em meio as ondas e disse:

– Você tinha razão, está congelando! Mas se a mãe natureza nos trouxe até aqui, tenho certeza que o propósito nadar em suas águas! – Ele gritou e sumiu nas ondas novamente. Que garoto esquisito… Mãe natureza? Tenho certeza que ele vai estar congelado em alguns minutos.

– Aliás, não tem como você ir embora sem suas sandálias né? – Gritou ele após reaparecer em meio as ondas com as minhas sandálias nas mãos. Em que momento ele fez isso? Esse garoto deve ter um neurônio a menos, só pode ser!

– Devolve minhas sandálias por favor, Ravi! – Gritei alto para que pudesse me ouvir apesar do barulho das ondas.

– Primeiro, meu nome não é Ravi, é Davi. E segundo, só vou lhe devolver se você mergulhar, eu acho uma proposta justa.

– Desculpe, mas eu trabalho amanhã. E provavelmente deve ser mais de meia noite e eu preciso voltar pra casa. – Foi o que respondi, no entanto pensei que um mergulho não teria tanto problema, teria? Além do mais, é a primeira vez durante minhas férias que alguém interage comigo dessa forma.

– Tudo bem, mas eu não vou levar suas sandálias – ele disse se aproximando da margem – pega aqui.

Mesmo com ele se inclinando o máximo, minhas pernas mergulharam na água novamente. Quando eu menos esperei, ele me puxou, fazendo com que eu mergulhasse por completo. Fiquei chateado pela inconveniência, mas eu também estava feliz. Quem é esse garoto que conseguiu fazer eu me sentir, de fato, feliz? Rejeitar a companhia dele não seria um meio de descobrir.

– Será que sua mãe natureza está contente comigo agora? – Falei jogando água no rosto dele.

– Agora que você cumpriu sua pena, creio que sim. – Ele riu e retribui a água no rosto.

E assim ficamos, brincando igual crianças na praia em plena madrugada, e por um tempo, eu simplesmente esqueci de tudo.

[Continua…]

Por @henrxm

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