Mente embaraçada

Ultimamente tenho tido a sensação de estar observando de longe a vida de uma outra pessoa. Assistindo uma rotina estressante que eu desconheço, largada em um sofá, conversando com amigos sobre coisas sem futuro pra tentar me distrair da realidade.

Aliás, Sinto falta de conversas com mais significado. Silêncios que abraçam e dizem “eu te entendo”. Sinto falta de pessoas que ainda não conheci e que não estou muito disposta a procurar. E nesse meio tempo agradeço por ter ele ao meu lado apesar das minhas crises e neuras. Agradeço por poder olhar para o céu dos olhos dele e dizer que eu tenho sorte por tê-lo. Sim, isso realmente é verdade.

Mas voltando a razão desse texto. Tenho andado com a cabeça enfiada em livros e perdida em qualquer cenário que não é o meu. E eu decidi ser sincera comigo mesma e afirmar que estive tentando fugir de uma sensação que tem me tirado o sono. É algo bem aqui dentro, sabe? Uma situação que até mesmo quem me conhece não entenderia porque só consegue ver o lado de fora. O emaranhado de nós na minha cabeça só eu consigo perceber. E sentir.

Devo admitir que não é de todo ruim que as pessoas não vejam através de mim. Se vissem talvez me achassem mal agradecida ou algo assim. “Poxa, olha o que você já conseguiu”. “Ah, mas tem tanta gente pior por aí”. Sim, eu sei de tudo isso e sinto muito também. Mas evitar sentir o que sinto só me faz engasgar e tentar pôr para fora a força. Por isso decidi abri essa página em branco para desembaraçar os fios que um dia já foram alinhados na minha cabeça.

A minha inquietação se deve a uma certeza que não vem junto com atitudes. Um desejo forte o suficiente para me fazer fitar o nada e me perder em pensamentos, mas incompreensivelmente incapaz de me fazer mover as peças de forma mais audaciosa e arriscada. Será por isso essa sensação esquisita de estar observando a minha vida do lado de fora de uma tela, sem poder fazer alguma coisa a respeito? Essa que vos martela as teclas – com um bom Indie Folk tocando aos ouvidos – está um tanto farta de ficar a espreita de sua própria vida.

Aquela música especial que me faz querer ser melhor, o beijo lento com carinho no rosto, a conversa sincera com a irmã mais nova, a série da Netflix onde o protagonista faz as coisas parecerem fáceis. É nesses e em outros momentos que meu coração se enche de inspiração e pede encarecidamente que eu não guarde tudo pra mim. As coisas costumam bagunçar quando jogo sentimentos em cima de sentimos.

E agora, depois de desatar a escrever quase sem respirar me dou conta do poder das palavras honestas colocadas em ordem. Me dou conta que nunca fui tão imperfeita e indecisa como agora. Mas há uma certeza que agora me faz cócegas e me faz sorrir. A certeza de que a impetuosidade – que um dia foi característica minha – não desapareceu, só estava guardada em um lugar onde nem eu mesma lembrava.

O quão frágil a vida é

A gente é tão acostumado a ter as pessoas ao nosso lado que esquecemos que em um piscar de olhos uma pessoa amada pode deixar de existir. Estamos expostos a infinitas formas de um fim súbito e ainda assim nos permitimos magoar e guardar mágoas. Assim, sem um pingo sequer de medo do amanhã.

Não é tão simples. Ninguém é obrigado a viver diariamente pisando em ovos para estar bem com tudo e com todos. Mas quando cai a ficha de que quem se ama não está mais por aí, carregar o peso do “se” é como andar com roupas molhadas; é frio e pesado… Os dias se arrastam e a gente só consegue pensar em como as coisas poderiam ter sido diferentes.

Estar vivo é um jogo em que morrer não é o game over, mas perder alguém que se ama é. Principalmente quando a partida acontece quando não se está bem com quem se foi. O orgulho tem um preço e não é nada barato. Por isso é importante sempre tentar cultivar um pouco mais de humildade e empatia. E não é fácil fazer isso pois não conseguimos programar as ações das outras pessoas sobre as nossas. Então a ideia é sermos humildes apesar de todo o resto.

Aquele clichê do Renato Russo sobre amar as pessoas como se não houvesse o amanhã é muito real. Realmente não há o amanhã e nem mesmo o depois. Só existe o agora e o incerto. E a gente segue atravessando esse campo minado diariamente tentando não morrer.

Mas isso não é suficiente. É sério, nem de longe é o suficiente. Porque quem vai embora deixa para trás um vazio que nunca vai ser preenchido. Um eco que vai nos acompanhar enquanto vivermos para não nos permitir esquecer o quão frágil a vida é.